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Crescimento inclusivo em Moçambique – reforçando a investigação e as capacidades

Opinião

Insulto acrescido à injúria: os impactos da COVID-19 na juventude urbana em Moçambique

Os impactos socioeconómicos negativos da pandemia da COVID-19 em Moçambique vão desde a redução da interação social ao encerramento de negócios, perdas de emprego, e aumento da pobreza. As evidências existentes  já  mostram impactos significativos na transição para o mercado de emprego de jovens que se formam em escolas técnicas e profissionais. Para os jovens desfavorecidos nas zonas urbanas, a pandemia reduziu ainda mais as suas perspetivas.

Dados colectados recentemente para o programa Crescimento Inclusivo em Moçambique demonstram que a pandemia agravou as condições já precárias e os constrangimentos financeiros enfrentados pelos jovens de 22 e 23 anos de idade em Beira e Maputo, as duas maiores cidades do país. A luta destes jovens urbanos reflete-se nas baixas taxas de matrícula ao ensino superior.

Apenas um terço acedeu à educação apesar das aspirações mais elevadas

Quadro 1: Níveis e aspirações de educação

Nível mais elevado matriculado ou concluído Homens (%) Mulheres (%) Total (%)
Alfabetização básica 0 0.2 0.1
Ensino primário 7.4 15.6 11.9
Ensino secundário 68.1 69.4 68.8
Ensino técnico 8.3 7.1 7.7
Educação universitária 16.3 7.7 11.5
Estado de Matricula escolar      
Temporariamente parado 61.2 70 66.1
Matriculado 38.8 30 33.9
O nível de ensino mais elevado aspirado      
Ensino primário 0.4 2.3 1.4
Ensino secundário 12.8 16.4 14.8
Ensino técnico 9.8 11 10.5
Educação universitária 77 70.3 73.3

Fonte: Autores, com base nos dados do inquérito à Pobreza Urbana MUVA

Apesar de cerca de três quartos dos jovens aspirarem o ensino superior, apenas um terço está matriculado em uma escola. O encerramento das escolas, que é resultado directo da pandemia, reduziu o acesso à educação, mas este não é o principal obstáculo à educação. Como a figura abaixo demonstra, o encerramento das escolas apenas representa entre 9–20% das razões citadas pelos não matriculados.


Figura 1: Razão para não estar matriculado na escola

Fonte: Autores, com base nos dados do inquérito à Pobreza Urbana MUVA

 

A principal razão para não estarem matriculados são as dificuldades financeiras, especialmente para os jovens inquiridos na cidade de Beira. As dificuldades financeiras estão também relacionadas ao importante papel que muitos destes jovens desempenham como contribuintes activos para o rendimento de suas famílias. À medida que a situação financeira destes jovens e de suas famílias se deteriora pela pandemia COVID-19, o seu acesso à educação é reduzido. Relacionado a este facto, para os jovens em Maputo conseguir um emprego foi a segunda razão pela qual desistiram de prosseguir com sua educação.

Há também diferenças importantes de género nestes constrangimentos. Para os homens, a necessidade de entrar no mercado de trabalho pode interromper a sua educação. Para as mulheres, a gravidez é frequentemente a razão do abandono às suas aspirações à educação.

Os jovens urbanos desempenham um papel importante no rendimento das famílias

Para compreender melhor como os jovens e as suas famílias têm lidado com o choque da pandemia, olhamos para as contribuições dos jovens no rendimento das famílias, para seus hábitos de poupança e para o acesso ao crédito (Tabela 2). Cerca de 80% dos inquiridos empregados (cerca de um terço do total) contribuem para o rendimento do agregado familiar. Muitos contribuem com mais de metade dos seus salários. O seu emprego desempenha um papel importante no consumo das famílias e, por conseguinte, na capacidade das famílias lidarem com a crise da COVID-19.

A poupança e o acesso ao crédito são também importantes para a resiliência económica. Muitos jovens conseguem poupar parte do seu rendimento. Embora a propensão a poupar seja maior entre as mulheres, o acesso ao crédito é maior para os homens. No geral, pouco mais de metade dos jovens afirmam ter acesso ao crédito. Note-se também que o acesso ao crédito é mais elevado para os empregados (65%) do que para os desempregados ou independentes (57%).

Quadro 2: Contribuição para o rendimento das famílias, poupança e acesso ao crédito

    Maputo     Beira   Total
Contribuição de parte do salário para o rendimento familiar Homens Mulheres Total  Homens Mulheres Total Total
Não contribui 10.1 15.7 12.6 12 21.4 15.9 14.4
Menos de metade 58.5 58.3 58.4 54.3 47.6 51.6 54.6
Mais de metade 23.3 19.7 21.7 26.4 24.1 25.5 23.8
Quase todo 8.2 6.3 7.3 7.2 6.9 7.1 7.2

Fonte: Autores, com base nos dados do inquérito à Pobreza Urbana MUVA

Em termos gerais o emprego não foi afectado pela COVID-19

É amplamente aceite que a COVID-19 teve um impacto considerável nos mercados de trabalho em todo o mundo. Todavia, para os jovens mais desfavorecidos nestas grandes cidades de Moçambique parece que os impactos negativos adicionais e imediatos da COVID-19 no emprego não foram assim tão fortes. Isto seria um aspecto positivo se a situação já não estivesse mal antes do início da COVID-19. Apenas cerca de 29% dos jovens estavam empregados antes das restrições governamentais serem impostas. Na altura do inquérito, esta percentagem subiu para 33%.

Este ganho no emprego dos jovens deve ser interpretado com cautela uma vez que o COVID-19 provocou perdas de postos de trabalho, mesmo tendo empurrado alguns jovens anteriormente desempregados para o mercado de trabalho (ver a Figura 2). Além disso, dos poucos que estavam empregados e não mudaram de emprego (mais de metade) 45% sofreram uma redução em suas horas de trabalho. Ademais, existem questões relacionadas à qualidade destes postos de trabalhos. Apenas um terço dos jovens empregados tem contratos formais, sendo que a maioria trabalha casualmente, sem qualquer acordo de trabalho específico.


Figura 2: Impacto no emprego e em negócios

Fonte: Autores, com base nos dados do inquérito à Pobreza Urbana MUVA

Durante a pandemia os jovens deixaram de trabalhar em negócios familiares

O negócio da família é muitas vezes um emprego alternativo para os jovens moçambicanos. Uma percentagem relativamente elevada dos jovens inquiridos na Beira trabalhava em negócios familiares. A COVID-19 afetou negativamente este segmento, uma vez que mais de 80% destes deixaram o negócio familiar em que trabalhavam.

Adicionais 26% dos jovens inquiridos trabalhavam em seu próprio negócio antes da pandemia. À altura do inquérito, esta percentagem havia reduzido para 23%, prova de que alguns jovens haviam perdido os seus negócios. Dois terços dos que continuaram com seus negócios viram os seus lucros reduzir.

Considerações finais

As principais constatações que se pode tirar a partir dos dados do inquérito são que poucos jovens moçambicanos prosseguem com a educação além do ensino secundário, como a formação técnico-profissional (TVET) ou a universidade. Isto deve-se principalmente ao facto de não poderem financiar estudos além do ensino secundário geral, apesar de terem o desejo de fazê-lo. Estes constrangimentos já existiam antes da pandemia, mas foram agravados durante a crise. Tendo em conta que a maioria dos jovens estava desempregada e que os jovens empregados contribuem para o rendimento das famílias, os elevados níveis de desemprego juvenil aumentaram as vulnerabilidades das famílias.

Os decisores políticos deveriam, portanto, apoiar os jovens moçambicanos através de oportunidades de acesso a recursos financeiros para financiar o ensino superior e a entrada ao mercado de trabalho.  No geral pode ser dito que, embora a pandemia tenha impactado negativamente os jovens de Maputo e Beira, a sua situação já era precária antes do impacto da crise. 

Eva-Maria Egger é Pesquisadora na UNU-WIDER, Ivan Manhique é Pesquisador Assistente no programa Crescimento inclusivo em Moçambique, e Finn Tarp é Professor de Economia do Desenvolvimento e Coordenador do Grupo de Investigação em Economia do Desenvolvimento (DERG) da Universidade de Copenhaga. Este blog baseia-se num inquérito realizado no âmbito do programa Crescimento inclusivo em Moçambique.

As opiniões expressas nesta peça são as dos autores e não refletem necessariamente as opiniões do Instituto ou da Universidade das Nações Unidas, nem os doadores do programa/projecto.