Projeto
Opinião

À sombra da pandemia para os recém-formados

O impacto da COVID-19 na transição dos jovens moçambicanos para o mercado de trabalho

Desde que despoletou em 2019, a pandemia da COVID-19 mergulhou o mundo numa crise, não só de saúde, mas também socioeconómica sem precedentes. Em resposta, durante a segunda metade do mês de Março de 2020, o governo de Moçambique decretou várias medidas —  em vigor até agora — que visavam garantir o distanciamento social, com o objectivo de quebrar a cadeia de transmissão da doença. Especula-se que esta nova realidade esteja a impactar negativamente a economia moçambicana, e em particular, os jovens, mas até agora há pouca informação concreta para avaliar os impactos no bem-estar desta parte da população.

Nesta peça apresentamos alguns indícios do impacto da COVID-19 na vida dos estudantes finalistas do ensino técnico em Moçambique, à medida que integram-se no mercado de trabalho na vida activa durante o início da pandemia, entre Abril e Junho de 2020, com base nos dados preliminares de um inquérito recente.

Entre Outubro de 2019 e Dezembro de 2020 o programa Crescimento inclusivo em Moçambique está a implementar um inquérito à transição ensino-emprego dos estudantes finalistas do ensino técnico-profissional em Moçambique. Com base numa amostra de estudantes finalistas de vinte escolas técnicas das províncias de Cabo Delgado, Nampula, Tete, Maputo Cidade e Maputo Província, o estudo conta com a participação de perto de 1.600 estudantes.

Baseamos nossas observações nos resultados da primeira e da segunda rodadas de seguimento desta pesquisa, a última das quais incluiu perguntas sobre o impacto do COVID-19 nas vidas dos estudantes finalistas.

Dos dados recolhidos, destacamos três principais resultados.

A COVID-19 está a ter um impacto económico negativo e significativo nos estudantes

Quase todos os jovens participantes no nosso inquérito afirmam ter sido impactados negativamente pela COVID-19, ou afirmam que as suas famílias e comunidades sofreram impactos negativos, independentemente da região onde residem (Figura 1).

Figura 1: Impactos da COVID-19

Nota: O número de observações é n=1,597 correspondente ao total dos que responderam sobre “ se a COVID-19 teve algum impacto financeiro/económico”

O encerramento das escolas, perda de emprego, redução das horas de trabalho e a dificuldade de encontrar um trabalho foram as mudanças com maior impacto sobre os estudantes

Pouco mais de 30% dos estudantes incorreram à perda de emprego ou redução das horas de trabalho devido à COVID-19 e cerca de 30% dos que não estavam empregados revelaram que as dificuldades em encontrar um emprego ou um estágio, ou fazer negócios, se intensificaram (Figura 2). Os estudantes da região sul foram relativamente mais afectados pelo encerramento das escolas, enquanto os do centro e norte tiveram maior dificuldade em encontrar um emprego, estágio ou biscate. Isso pode indicar que, na pós-pandemia, os alunos das últimas regiões têm maior probabilidade de ingressar no mercado de trabalho após concluírem o ensino técnico, ao passo que os alunos da região sul têm maior probabilidade de continuar seus estudos.

Figura 2: Tipos de impacto negativo da COVID-19 por regiões

Nota: O número de observações é n=1,422 correspondente ao total dos que responderam sobre “que tipo de impacto financeiro/financeiro a COVID-19 teve pessoalmente”

O emprego se deteriorou durante o estado de emergência

A emergência do COVID-19 em Moçambique e as políticas de contenção da pandemia no país, terão efeitos negativos na entrada e retenção dos formados do ensino técnico-profissional no mercado de trabalho.

Apenas 31% dos participantes que estavam desempregados durante a primeira ronda de seguimento encontraram trabalho na segunda ronda de seguimento. Para aqueles que já estavam empregados, a situação piorou significativamente. Uma percentagem considerável dos participantes empregados na primeira ronda (37%) fez a transição para o desemprego e 20% deles mudou-se para formas de trabalho mais precárias, como trabalho ocasional ou biscate. Os participantes contratados por ONGs ou pelo setor público sofreram menos impactos, embora esses dois setores representem uma parcela muito pequena (menos de 10%) daqueles empregados.

De modo semelhante, os participantes que frequentaram cursos da área de saúde apresentaram uma percepção relativamente reduzida de impacto negativo, reflectindo possivelmente o papel preponderante deste sector no contexto pandémico actual.

Quatro meses depois, o que podemos concluir?

Os resultados do inquérito preliminar mostram fortes indícios de um impacto económico negativo e generalizado da COVID-19 nas perspectivas de emprego dos jovens moçambicanos durante os primeiros meses da pandemia. Embora o sector informal sirva de refúgio, ele tem se mostrado insuficiente, resultando em uma alta percentagem de jovens que caem no desemprego. Alguns sectores, como ONGs e o setor público, têm sido mais resilientes.

Se os finalistas em ensino técnico-profissional já enfrentavam desafios em integrar-se no mercado de trabalho antes da COVID-19, estes aumentaram significativamente durante o início da pandemia. Os resultados indicam a necessidade de monitoramento contínuo do mercado de trabalho pelas autoridades competentes, especialmente para os impactos da COVID-19, e também a criação, com urgência, de políticas de respostas que fortaleçam a resiliência das empresas locais para sustentar as perspectivas de emprego para os jovens.

Ivan Manhique e Gimelgo Xirinda são pesquisadores assistentes do programa Crescimento inclusivo em Moçambique e um dos contribuintes do Inquérito de base à transição ensino-emprego dos graduados do ensino técnico-profissional em Moçambique. O inquérito, actualmente em decurso, será concluído em Dezembro de 2020.

As opiniões expressas neste blog são do(s) autor(es) e não reflectem necessariamente as opiniões dos doadores do programa/projecto.