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Inquérito de base revela desafios enfrentados pelos estudantes do ensino técnico-profissional em Moçambique

Uma pesquisa com estudantes finalistas do ensino técnico-profissional em Moçambique sugere que, apesar das recentes reformas, os estudantes continuam a enfrentar desafios relacionados à qualidade do ensino e equipamento, custos e orientação adequada sobre as expectativas futuras de carreiras e renda. A pesquisa e análise contínua, que serão realizadas durante 2020, fornecerão evidências relevantes e de alta qualidade as decisões que apoiam reformas políticas de educação e de emprego para os jovens em Moçambique.

O inquérito de base realizado pelo programa Crescimento inclusivo em Moçambique – reforçando a investigação e as capacidades, em colaboração com o Ministério do Trabalho, Emprego e Segurança Social de Moçambique, examinou as experiências e expectativas de mais de 1600 estudantes finalistas, enquanto se preparavam para transitar do ensino técnico-profissional para o mercado de trabalho no final de 2019. A pesquisa continuará até Dezembro de 2020 e inclui quatro rondas de pesquisa com os mesmos estudantes, acompanhando detalhadamente a sua transição da escola para o mercado laboral.

A pesquisa fornece dados inéditos sobre o ensino e formação técnico e profissional (ETP) em Moçambique, incluindo histórico familiar, experiência do estudante, oportunidade de ganho de experiência profissional e expectativas de emprego.

Sam Jones, principal autor do estudo e pesquisador da UNU-WIDER, disse: 'O ensino técnico-profissional é de grande relevância para o mercado de trabalho moçambicano, dada a escassez geral de habilidades técnicas e o esperado crescimento futuro na demanda para essas habilidades, parcialmente relacionado a projectos de investimento estrangeiro. Apesar das reformas recentes, não se sabe se o sistema do ETP existente é capaz de fornecer aos estudantes os tipos de habilidades actualmente necessitadas pelas empresas. Por exemplo, qualidade de ensino, acesso a equipamento e acesso à experiência de trabalho podem todos ter impacto significativo nos resultados de futuras carreiras. Assim, as informações recolhidas pelo nosso estudo fornecerão as evidências necessárias para melhorar a qualidade, a relevância e a capacidade de resposta do sistema ETP às necessidades reais do mercado de trabalho'.

Algumas evidências do inquérito de base:

  • No geral, os estudantes estão satisfeitos com os seus estudos e instituições: em média, mais de 90% dos estudantes escolheriam novamente o mesmo curso e 72% disseram que escolheriam a mesma escola. Os estudantes que frequentam as escolas privadas e comunitárias expressaram menor satisfação com as suas instituições do que aqueles que frequentam escolas públicas menos dispendiosas.
  • 76% dos estudantes afirmaram que a sua escola precisa investir em equipamentos e um em três entrevistados identificaram a fraca motivação dos professores e conhecimento técnico como sérios obstáculos à aprendizagem. Os estudantes de agricultura eram mais propensos a relatar obstáculos graves nos seus estudos.
  • Os homens representavam a maioria dos estudantes na indústria (80%) e na agricultura (57%), enquanto as mulheres (60%) superavam os homens em cursos no sector de serviços.
  • A experiência profissional pode melhorar a empregabilidade do estudante após a formação. Enquanto, em média, mais de 73% dos estudantes inquiridos completaram algum tipo de experiência profissional, encontramos diferenças de género e regionais. Por exemplo, em todas as áreas de estudo, mais de 80% dos homens formaram-se com experiência de trabalho, em comparação a 60% das mulheres, enquanto os estudantes da Cidade de Maputo eram menos propensos do que os seus pares em outras províncias a terem concluído a experiência de trabalho durante os seus estudos, sugerindo uma saturação de oportunidades neste local.
  • No geral, houve uma notável tendência empreendedora entre os estudantes que pretendiam trabalhar após a formação: 83% afirmaram estar abertos a trabalhar por conta própria, informalmente ou iniciando o seu próprio negócio.
  • Os estudantes não tinham certeza de quanto tempo levaria para encontrar um emprego, mas tinham expectativas relativamente altas em relação a ganhos futuros. Os seus professores, por outro lado, tendiam a prever salários mais baixos para os estudantes e esperavam que um em cada cinco graduados estivesse desempregado um ano após a formação.


Contextualização

O inquérito à transição ensino-emprego dos finalistas do ensino técnico-profissional de Moçambique faz parte da política sectorial e do inquérito ao mercado de trabalho realizadao no âmbito do programa Crescimento inclusivo em Moçambique – reforçando a investigação e as capacidades. O programa é implementado em conjunto pela Direcção de Estudos Económicos e Financeiros (DEEF) do Ministério da Economia e Finanças de Moçambique, o Centro de Estudos de Economia e Gestão (CEEG) da Universidade de Eduardo Mondlane (UEM), United Nations University World Institute for Development Economics Research (UNU-WIDER) e o Grupo de Pesquisa em Economia do Desenvolvimento (DERG) da Universidade de Copenhaga (KU).

Junto com o estudo à transição ensino-emprego dos estudantes finalistas universitários concluído em 2019, esta pesquisa visa contribuir para a análise dos vínculos entre o mercado laboral e o ensino superior em Moçambique e permitir políticas de longo alcance, inclusivas e baseadas em evidências em todos os sectores.

1,639 estudantes finalistas de 20 instituições nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Tete, Província de Maputo e Cidade de Maputo participaram do estudo de base realizado entre Outubro e Novembro de 2019. Entrevistas de acompanhamento dos mesmos estudantes serão realizadas em 2020 para ver como as suas circunstâncias e expectativas mudaram durante os 12 meses após a formação, considerando também a pandemia do COVID-19. Os resultados finais e a análise serão publicados no início de 2021.